Quarta-feira, Abril 19, 2006

.ngm, o misantropo (parte 3/3)

Aqui se completa a minha triologia. É o rematar da minha cruzada anti-social. A título de recordação, e enumerando para nada deixar para trás, a parte primeira da minha misantropia dediquei-a aos falsos moralismos patriotas aplicados à febre futebolística. A segunda das partes versou sobre morangadas e mais patetices televisivas.

Hoje explanarei, com modos que pretendo civilizados, o mais amargo e visceral dos meus ódios. E é difícil fazê-lo com modos civilizados, tratando-se de tão arreliante repulsa. Falo, evidentemente, desse flagelo da sociedade que são as frases feitas e os lugares comuns.

Quem não tenha presente a impressionante quantidade de lugares comuns e frases feitas existentes na nossa língua, basta assistir durante alguns minutos a um qualquer reality show da TVI, local onde a produção e a divulgação deste tipo de máxima é mais prolífica. Basta assim assistir a um Big Brother Celebridades (Edição 37ª) para se aperceber que o José Castelo Branco é, provavelmente, "muito frontal, o que tenho a dizer digo na cara, percebeste"? E porque não afirmar, em abono da verdade, que a Cinha é muito "amiga de seu amigo", apesar de, por vezes, ser um pouco "falsa e cínica" (e quem o diz é, com alguma probabilidade, alguém "muito frontal").

Quando falo de frases feitas e lugares comuns, vou um pouco além da sua classificação habitual, que é meramente sintática. O que me desagrada profundamente não são meramente as frases e a sua sintaxe, mas sim a maneira de as dizer, a atitude sobranceira com que se insulta uma língua fértil como a portuguesa.

Mas nem só de reality shows vivem estes clichés de meia tijela, apesar dos mesmos serem a sua face mais visível. É suficiente andar pelas ruas para se conhecer, reconhecer e confirmar a existência destas pessoas, que falam com aquele ar decidido, afirmando banalidades como quem descobre a vacina para o H5N1, opinando como quem decreta, falando com desprezo e revirar de olhos de quem não partilha da mesma opinião, rematando muitas vezes um monólogo difamatório com resoluções como "... e olha que eu sou muito bom/boa a avaliar o carácter das pessoas, percebeste(S)?".

Esta maneira (deprimente) de falar e esta atitude é tão frequente que bastas vezes dou por mim a pensar que deve haver por aí um curso intensivo para que todos possamos aprender a falar de maneira igual, proferindo incansavelmente patetices e epítetos virgens de originalidade e, invariavelmente, de sentido.

Desta atitude que tanta repulsa (lá está a incivilização a vir ao de cima) me causa, fazem parte pérolas que, num post sobre a mesma, não poderia deixar passar impunes. Falo de preciosidades como "Eu nunca me arrependo de nada do que faço". Esta afirmação (tola, opinaria eu) quando dita correctamente, deve ser proferida num tom assertivo, sem qualquer tremelique de dúvida na voz, decretando-a como se fosse uma máxima pela qual se guia a nossa vida, e pela qual todos nós o deveríamos fazer. É concluída, não raras vezes, e apenas por conhecedores e profissionais deste tipo de expressão, com a frase "Só me arrependo das coisas que não faço".

O que dizer então do epíteto que se cola a todo o tipo de objectos, pessoas e formas de arte um pouco mais polémicas? Dizem, sobre um sem-fim dos supra-citados, que "isso é daquelas coisas que ou se adora, ou se detesta, não há meio termo". Para que fique em acta, o meio termo existe! É possível, por exemplo, gostar mais-ou-menos do José Castelo Branco (personagem proeminente da nossa cultura, à qual se cola habitualmente o rótulo do amor/ódio). EU gosto mais ou menos do José Castelo Branco! Acho-lhe moderadamente piada, não gosto dos seus trejeitos abichanados, não o adoro, não me apetece partir-lhe as duas rótulas...

É realmente irritante este hábito de falar de forma assertiva e inquestionável. É incomodativo que o insulto que se escolhe para alguém que não se goste seja invariavelmente o "ela é uma cínica" (desculpem o sexismo, mas vão concordar que o colar o rótulo do cinismo é mais frequente pelo sexo feminino). É estranho que tanta gente seja tão "bom avaliador de carácter" apenas por olhar as pessoas nos olhos, as "janelas da alma". Temos, como prémio de consolação, e como já referi, que falo de pessoas onde a frontalidade sobeja e transborda, como qualidade primordial, pessoas que tudo o que têm a dizer dizem "na cara".

Estava a acabar este post quando o me cruzou pela cabeça o pensamento de que o mesmo me poderia vir a trazer alguns dissabores e discordâncias com pessoas que muito estimo. Olhem, quer perca ou ganhe amizades, quer crie ou destrua afectos com as minhas insensíveis opiniões, resta-me a mim o alívio que, como diria Rita Ribeiro (artista do teatro/cantora/namoradeira/guru dos clichés), "SÓ FAZ FALTA QUEM CÁ ESTÁ!"

1 Comentários:

Blogger Galdéria terá dito...

tenho-te a dizer que "subiste(s) uns pontos na minha consideração", "até escreves bem", "és directo e frontal", e sobretudo, "NUNCA MUDES!" (esta é a minha preferida... nunca hei-de mudar PORQUE?!?) Beijinhos :)

Qua Abr 26, 11:39:00 PM  

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