Segunda-feira, Abril 03, 2006

Cantando, encantando e cansando um bocadinho...

Acordar a uma segunda feira com o despertador a tocar as 7 da manhã é capaz de ser uma das piores experiências possíveis para um humano. Comparável a um concerto de Slipknot quando pagamos o bilhete para ver Enya.
Adiante, acabou o fim de semana e em boa hora o fez, pois os meus olhos dificilmente aguentariam mais televisão de baixa qualidade, mas apelativa aos instintos mais básicos, vectores mestres da programação nas matinés de sábado e domingo.

Mas este fim de semana não foi igual aos outros. E a grande diferença deste fim de semana, é que normalmente não vou a concertos de figuras patriarcais do rock lusitano. E isso aconteceu este sábado.
José Cid tocou, dia 1 de Abril, no Maxime, em concerto que, de resto, já tinha sido publicitado neste espaço.

A noite começou a revelar-se especial quando, minutos antes do começo do espetáculo, o apresentador de serviço subiu ao palco para dizer que o próprio José Cid, num rasgo memorável de magnificência, tinha avisado que era seu desejo ter público sentado à sua volta em pleno palco.
Trinta minutos depois da hora marcada, o artista aparece vindo de trás da cortina de veludo, senta-se ao piano, e tal era a comoção e tamanha era a ovação, viu-se Cid obrigado a pedir calma e contenção ao seu público, tendo proferido palavras como "eu sei que vos apetece agarrar-me, beijar-me, despir-me, mas é preciso ter calma".

Numa noite em que a plateia estava recheada de celebridades, figuras do jéte séte da nossa praça, um treinador de futebol cujo primeiro nome é Jesualdo e estrelas dos mais variados quadrantes das artes lusas, a mais emblemática das quais sendo, na minha opinião, a Marta, do "OK tele seguro, fala a Marta.", José Cid viu-se, a princípio, necessitado de sondar o público da sala, começando com grandes êxitos, metendo, logo a abrir, quase toda a carne no assador. No começo do espetáculo, ainda tentando perceber a reacção de um público constituído na sua maior parte por gente nascida durante e após a composição dos maiores êxitos da sua vasta obra, o artista começa cada música oferecendo uns acordes do refrão, para aquecer os espectadores. Mais tarde apercebeu-se que aquele era um público seguro, que independentemente da idade, cantava, dançava e trauteava todos os seus refrões.

A espetacular sala do Maxime, onde o calor era quase insuportável e o bar praticamente inatingível devido ao oceano de pessoas (e dificilmente atingível para uma carteira magra como a minha), e apesar deste hercúleo desconforto, vinha abaixo quando José cantava os seus maiores êxitos. É difícil estar desconfortável quando se dança ao som cru de José Cid, um piano e centenas de pessoas a cantar em uníssono um inesquecível "Vem viver a vida amor...".

A primeira hora de concerto foi realmente inesquecível, muito viva, quase comovente, na relação de José Cid com o seu reencontrado público, com um público que, dá a impressão, nem o próprio Cid sabia tão apaixonado, tão conhecedor da sua obra.

Houve duetos com 2 figuras femininas, a cantora galega Maria Pasos e uma portuguesa que, na minha ignorância, desconheço por completo, momentos mais calmos, onde o mais marcante foi talvez a interpretação de Porto Côvo, de Rui Veloso, num dueto com a cantora nuestra hermana. Hilariantes foram os momentos em que o artista chama Tozé Brito a palco para um dueto, chegando-se à conclusão de que o mesmo não estava presente, e o repetir da mesma exacta situação, ao chamar Rita Ribeiro, ao que exclamou José Cid ao microfone "A Rita Ribeiro também parece que não está cá, deve ter arranjado um namorado novo".

Seguiu-se o intervalo, que é como quem diz, 45 minutos parado numa sala apinhadíssima, onde o calor é, como já disse, tropical e o bar está longe, apesar de apenas 10 metros me separarem dele. E da mesma maneira que o desconforto me atinge a mim, atinge todas as pessoas presentes na sala, e o regresso de José Cid para a segunda parte foi saudado pelos espectadores mais como um acto misericordioso de nos tirar daquele marasmo suado e de garganta seca do que como um regresso do verdadeiro artista.
O intervalo, resumindo a minha opinião, quebrou por completo uma plateia que até aí se tinha mostrado completamente disponível a esquecer por momentos o desconforto e a disfrutar alegremente das pianadas rasgadas de Cid. Também não ajudou, nesta situação, a falta de êxitos decorrente do "gastar" dos mesmos na primeira parte do espetáculo.

O concerto acabou tarde, numa altura em que a plateia animava de novo com o repetir de grandes êxitos, incluindo um pedido de encore com um uníssono do refrão "Sonhos que o tempo apagou, mas para nós ficou esta canção" repetido insistentemente até ao regresso do mestre.
Voltei para casa com a sensação que poderia ter assistido, mais bem gerido no esforço e no alinhamento, a um concerto histórico, de antologia, mas que acabou por ter apenas uma primeira parte muitíssimo boa, com momentos realmente antológicos, mas com um final esforçado, com uma plateia cansada, mais apagada, e muito desconfortável.

Nota altíssima para a música, que pessoalmente não conhecia, dos carneirinhos, e para a nova música "O melhor tempo da minha vida".

De qualquer maneira, e não querendo acabar esta crónica em tom aparentemente negativo, é sempre memorável ver José Cid ao vivo, e o Maxime é possivelmente a melhor sala de espetáculos de Lisboa para receber um concerto desta índole.

6 Comentários:

Blogger António Ferrão terá dito...

em primeiro lugar uma palavra para o autor e para a crónica, diria quase indigna de uma blitz pela qualidade da análise em relação ao conteudo.

a verdade é que também eu fiquei um pouco desapontado com o facto de Zé Cid ter queimado os melhores cartuchos a abrir o concerto. quiçá devido à entrada verdadeiramente apoteótica.

senti-me novo para aquelas andanças
valeu a pena, mais pelo olhar de surpresa que as pessoas "nos" deitavam por estarmos ali e termos menos de 30 anos.

uma ultima palavra par a tal musica dos carneirinhos, uma agradável sátira bem ao jeito revolucionário de outros tempos ainda assim demasiado actual.

depois de o ver quase de lágrima na caixa mágica pois há algum tempo que tem um album preparado e não encontra quem o publique, falta de convites para espectáculos e a moda que foi criada em fazer pouco da sua figura; resta-me esperar que este concerto nos traga de novo José Cid e outros artistas representativos da verdadeira musica popular portuguesa e uma renovada alegria ao próprio que bem a merece.

obrigado José Cid

Seg Abr 03, 12:17:00 PM  
Anonymous zecidforever terá dito...

Porto Côvo de Rui Veloso foi cantado?? Ou terá sido A Feiticeira do amigo Luís Represas? Uma correcção necessária num texto que exprime a excelente noite que se viveu no Cabaret Maxime.
Grande Mestre!

Seg Abr 03, 01:39:00 PM  
Blogger .ngm terá dito...

Na primeira parte a primeira cantora portuguesa que fez dueto com o Cid cantou o Porto Côvo com ele; na segunda parte a Maria Pasos cantou a Feiticeira do Luís Represas.

Tens toda a razão ao dizer que há um erro, porque no blogue eu digo que foi a galega a cantar a música do Rui Veloso, que é mentira.

Vou já editar o post para emendar isso. Obrigado por me fazeres reparar! E obrigado pelos elogios :)

Seg Abr 03, 01:47:00 PM  
Anonymous Roy terá dito...

Ok, dá para ver bem o quanto soube aproveitar dos momentos sublimes passados no sábado à noite, realmete foi pena não ter assistido (também) aos de domingo, o que posso lhe garantir foram melhores ainda, com duetos com Dora (dos Delfins), a Maria Pasos, a Paula Varela Cid (a lusitana), o surpreendente Zé Perdigão e seus fados, e evidentemente, a qualidade e mestria do grande Dinossauro Português, JOSÉ CID.
Procurem-nos!!!!!
Ahhh!
E também tivemos grandes socialites protuguesas, como o Sr. Presidente da Câmara de Lisboa, Miguel Ângelo (aniversariante!), Olavo Bilac, Paulo Gonzo, tantos.........

Seg Abr 03, 06:14:00 PM  
Blogger Nuno Barros terá dito...

Obrigado pela crónica. Infelizmente não estive lá. O meu contributo em
http://omeupiupiu.blogspot.com/2006/04/jos-cid-maxime.html

Ter Abr 04, 12:34:00 PM  
Anonymous zecidforever terá dito...

http://rapidshare.de/files/17559251/131_3159.AVI.html

Este link leva directamente o leitor ao êxtase que foi o Mestre no Maxime a 1 de Abril.
Aproveitem!

Qua Abr 12, 07:49:00 PM  

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