Terça-feira, Abril 11, 2006

2 vozes em guerra na minha cabeça...

"Olhe, desculpe, vai p'ra onde?", pergunta-me, inesperadamente, o velhote de cara simpática, mas ao mesmo tempo dura e trabalhada pelos anos. Não se pode dizer que tenha sido completamente inesperado. Desde a saída do portão do Instituto Superior Técnico que caminhávamos praticamente lado a lado pelo passeio da Av. António José de Almeida, tendo-se inclusivamente ocasionado uma definitiva troca de olhares entre nós, confirmada com um sorridente "Boa tarde!" de parte a parte. Talvez isso tenha bastado para travar conhecimento com profundidade suficiente para que aquele senhor ganhasse a confiança de me fazer tal pergunta, enquanto eu entrava no carro, estacionado mesmo à beirinha da minha antiga faculdade.

"Vou... hummmmm... ali p'rós lados da Praça de Espanha...", respondi eu, passados uns segundos de perplexidade, e com a desconfiança, que não tentei esconder, de quem responde a um completo desconhecido uma pergunta tão pessoal como o nosso destino. Aquilo era esquesito. Não é costume que nos perguntem para onde vamos quando entramos no carro no meio da rua... ("é só um velhote, inofensivo, em princípio está tudo bem, vamos com calma" - penso eu, com a voz interior de todas a mais pessimista, aquela que lhe dá para desconfiar de todos os que rompem a normalidade e realmente falam connosco)

O velhote ficou visivelmente agastado e insatisfeito com o meu destino, que não era aquele que mais lhe convinha, e não se fez rogado, respondendo, primeiro com uma voz pensativa, alternando com a decisão final "Hummmm... Praça de Espanha... Dava-me mais jeito se fosse mais lá p'ró Campo Grande... (aqui passa de voz pensativa para uma voz afirmativa, como quem decreta algo de indiscutível) Olhe, mas também pode ser! Deixa-me ali na Avenida da República que eu apanho lá o Metro!".

Aquela apanhou-me mais de surpresa do que uma chuva de cofres nas ruas de Campo de Ourique apanharia. Perplexo, e com a tal vozinha pessimista a dizer "É que nem penses, não vais fazer isso, o tipo é um desconhecido, ainda te corta a guela com um cartão multibanco!", tinha outra voz, a que está nos antípodas da minha cabeça, a mandar entrar o homem, que o levava onde ele quisesse (se dependesse unicamente dessa 2ª voz da minha cabeça, eu já estava era sentado no banco corrido da tasca mais próxima a beber uma mini com o velhote, mas enfim...).

Acabou por ganhar a faceta pessimista (e porque não chamar-lhe receosa, medrosa, mariquinhas), e saiu-me um balbuceante: "Oh amigo, desculpe lá mas eu não lhe vou dar boleia!" "NÃO VAI?!?" (Responde ele com uma voz genuinamente espantada e incrédula) "Então, mas eu... mas eu não o conheço de lado nenhum!" "Conhece sim senhor! Ainda agora o vi a sair do Técnico e eu sou segurança lá, tá aqui o cartão!" (Sacando da carteira, mostrando o cartão) "Se você anda aqui pelo Técnico é como se nos conhecessemos!" (afirmativo, sorridente).
Deixou-me desarmado, o cabrão do velho. A voz pessimista e a voz boazinha começaram num berraria tal dentro do meu crânio que nem que fosse para as calar, mandei o homem entrar, que sim, que o deixava na Avenida da República.

"Não me diga que estava com medo?!?" diz ele com um toque humorístico na voz, quase a mangar de mim. Disse-lhe que não, não era medo, era por não o conhecer, e porque não se pode confiar e tal, porque... calei-me para não estar a dizer mais disparates.

Dei-lhe boleia, ficámos amigos. Praticamente só ele é que falou, e falou muito, para uma viagem de 600 metros, ainda que intercalada por um sem fim de semáforos. Contou-me que já tinha sido polícia (facto que comprovou, mais uma vez, sacando da carteira de couro e mostrando o cartãozinho, onde uma foto tipo passe com mais de 2 décadas revelava a mesma cara simpática, mas 20 e tal anos menos marcada pela vida, com um inconfundível chapéu de bófia e onde estava escrito em letras azuis "Polícia de Segurança Pública". Numa mistura de personagem do filme Big Fish com um verdadeiro Tarzan Taborda da condução gratuita, afirmou às tantas que já tinha dado boleia "a mais de 1000 pessoas" durante a sua vida! Contou-me histórias rocambolescas de gente sem gasolina na auto-estrada, mulheres grávidas e recém divorciados que tinham ido afogar as mágoas para os copos para Torres Vedras e tinham ficado sem dinheiro.

Enquanto ouvia pensava na vida de uma cidade onde as pessoas davam boleias umas às outras, ocasionalmente, conforme isso fosse dando ou não jeito. E as boleias combinavam-se ali, no momento, com desconhecidos. É mais ou menos assim o mundo deste homem. E o mundo só pode ser assim para algumas pessoas, porque sabemos (e eu não me queixo) que não é possivel confiar em todos os que nos peçam boleias disparatadamente por aí...

Mas ainda bem que só pode ser assim para algumas pessoas, como para o senhor Vasco Martins, ex-agente da autoridade, prestador de serviços de condução gratuita, segurança universitário, viajante à boleia, velhote com a cara simpática, mas ao mesmo tempo dura e trabalhada pelos anos... Ainda bem que só pode ser assim para um grupo tão restrito de pessoas, senão ficava eu, interessante ou desinteressantemente, sem uma história para contar hoje.

6 Comentários:

Blogger o homem do blog terá dito...

Portanto o Sr. Vasco pediu-te uma boleia do técnico até à Av. da República... um percurso que se faz num minuto a pé... Sou só eu que acho isso ligeiramente esquesito?

Ter Abr 11, 04:13:00 PM  
Blogger .ngm terá dito...

Não é um minuto. São 600 metros como eu digo no post (estive a contá-los no via michelin :) eheheh).

De qualquer maneira sim, é estranho, porque é um percurso que nos como estudantes estávamos habituados a fazer numa base regular, mas para um velhote carregado num dia em que inesperadamente, ao princípio da tarde, se pôs um sol quente e agressivo, é compreensível...

Ter Abr 11, 04:22:00 PM  
Blogger .ngm terá dito...

de qualquer maneira, ele queria ir até ao campo grande, distancia suficientemente grande para pedir uma boleia, mas como eu ia para a praça de espanha, olha, o mal menor era dar-lhe boleia até onde podia e me ficava a caminho, que era a avenida da república =)

Ter Abr 11, 04:27:00 PM  
Blogger mariana terá dito...

fizeste bem, é fixe conhecer pessoas.

Qua Abr 12, 07:47:00 PM  
Blogger António Ferrão terá dito...

hoje em dia quase todos têm carro. a ideia de boleia parece pouco real. mas há quem tenha viajado muito assim.. nos tempos em que não se faziam filmes com camionistas, moto-serras e as inevitaveis arcas frigorificas onde cabem aconchegadamente diversos rins. ha quem tenha ido à boleia para a galáxia. o importante é andar sempre com uma toalha

Seg Abr 17, 12:22:00 PM  
Blogger JohnnyBoy terá dito...

"Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos." de Eugénio de Andrade

Lembrei-me disto quando li este post
Felizmente tudo acabou bem!
um abraço

Ter Jan 02, 10:30:00 PM  

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