sodomizado à bruta...
o jornal enrolado na mão direita eleva-se no ar...o jornal enrolado na mão direita descreve grandes movimentos circulares...
com cuidado para não embater nas outras viaturas, guiamos o nosso automóvel, introduzindo-o no contíguo lugar de estacionamento, tarefa suficientemente fácil, pensaríamos nós, mas para a qual aquele homem de jornal na mão insiste em dar a sua ajuda "preciosa".
saímos do carro, o homem de jornal na mão, entretanto, vai deambulando por ali, dividindo a sua atenção entre a nossa saída do carro e a eventual chegada de mais um automobilista sedento de ajuda para que possa efectuar com maior facilidade a difícil tarefa que é o estacionamento.
o homem de jornal na mão vai dissertando sobre coisas como os factos da nossa viatura ter ficado "bem ali" e que nós não temos de "nos preocupar".
saímos do carro, procuramos uma moeda de meio euro nos bolsos, damos a moeda ao homem do jornal na mão, consumando aquela que me parece a mim ser uma das mais estapafúrdias e injustas trocas comerciais do mundo moderno.
o que nós acabámos de fazer, ao dar uma moeda de meio euro ao homem de jornal na mão não foi pagar a ajuda que ele (não) nos deu para estacionar o carro. não foi sequer pagar pela segurança que nos daria ter alguém, ainda que um homem de jornal na mão, a guardar-nos o carro, como ele insiste em dizer que faz. nós pagamos apenas e só, e isto não é novidade nenhuma, mas permitir-me-ão o lugar comum, o favor que este homem de jornal na mão faz em não nos riscar a imaculada cobertura de tinta metalizada da nossa viatura.
ora, pode-se daqui "extrair" suficiente "sumo" para que se possa classificar esta troca comercial, entre nós e o homem de jornal na mão, como aquilo a que na gíria técnica dos comerciais costumamos chamar o "bater no ceguinho".
não é, contudo, contra isto que me insurjo.
não me atrai a possibilidade de dar dinheiro a um homem para que ele me faça o obséquio de não me riscar o carro. não gosto de o fazer, mas a verdade é que já é um acto inconsciente para nós fazê-lo sem refilar muito "connosco". sem nos sentirmos chateados com a nossa própria pessoa por ceder ao "terrorismo do meio euro".
há, ainda assim, um novo fenómeno a crescer nas ruas. algo que está a assumir-se aos poucos como uma realidade. uma actividade que começa a estabelecer-se nas avenidas, nas praças, nos becos e nas ruas de Lisboa.
se antes dávamos meio euro ao homem de jornal na mão, mas ainda tínhamos o "consolo" de dizer o típico (ainda que por vezes mentiroso): "ao menos dou 50 centimos ao gajo, mas não pago o estacionamento/parquímetro", hoje, começa a ser uma realidade o dito homenzinho, de jornaleco na mão, desenvolver a sua ilícita actividade em zonas de parqueamento pago, vulgo "ruas com parquímetro".
aquilo que, há uns anos, quando começou a grande proliferação de parquímetros, parecia ser o princípio do fim desta nobre profissão, que é andar a correr a apontar para lugares de estacionamento livres, já que estes profissionais seriam, ao que tudo indicava, gradualmente substituídos por máquinas automaticas sedentas de moedas, é hoje o instalar-se de uma relação parasítica entre parquimetros e arrumadores.
entabulei, um dia destes, uma conversa com um destes senhores, que, em pleno saldanha, me indicava um lugar, visível a grande distância e no qual seria mais fácil estacionar não tendo um homenzinho aos saltos a mandar-me avançar e recuar. ao sair do carro pareceu-me ser aquela uma zona munida de parquímetros. indagado a responder-me sobre se seria isso verdade ou não, o profissional do terrorismo urbano respondeu-me, com naturalidade, que sim, que assim era.
perguntei-lhe então qual era a opinião dele sobre a "normalidade" daquela situação, e qual deveria ser a minha atitude perante a mesma. deveria eu pagar parquimetro? e a moeda para o manuseador de jornais? deveria eu, "oh injustiça suprema", distribuir dinheiro por ambos?!?
de imediato me alertou o senhor que a polícia ali "é lixada, anda aí à cata, a multar quem não tem parquímetro", mas que eu poderia, e esta pérola, meus amigos, são palavras do meu interlocutor, "dividir o mal pelas aldeias" pagando um pouco a um e um pouco a outro, como se de duas actividades idênticas se tratassem.
incrédulo, com uma postura entre o divertido e o indignado, paguei o devido parquímetro, mas não dei meio euro a este homem, pelo que não me livrei de uma visita ao médico em que me preocupei mais pela saúde da pintura do meu carro do que com a minha própria saúde.
a minha conclusão, meus caros e poucos leitores, é que em ruas com parquímetros E com arrumadores, já não se pode dizer que sejamos vítimas do "terrorismo do meio euro"... ruas com parquímetros E com arrumadores provocam-nos aquela sensação que os rapazes do gato fedorento chamaram, com muita piada, a sensação de ser "sodomizado à bruta"...


3 Comentários:
"mas a verdade é que já é um acto inconsciente para nós fazê-lo sem refilar muito "connosco"..."
Quantos de nós não damos uma moedinha, não por medo de chantagem urbana, nem para que ele não refile connosco, mas no simples acto egoísta de que estamos a dar uma esmola para ajudar o outro.. o mais pobre, o menos...
Apenas para nos podermos dizer-nos a nos mesmos (meto aqui mais um "nos" só mesmo por meter) que somos malta "fixe"?
Aí sim está o acto "inconsciente"
em primeiro lugar deixa que te diga, bem vindo do volta ao mundo dos blogs. que, tambem no meu caso coincidiu com a entrada no mundo laboral, porque sera?
acho que é essencial abrir um precedente nesta matéria. alguém que mate um arrumador que lhe risque o carro e saia impune para que outros como "nós" nos sintamos mais à vontade com o "volta-costas-ao-arrumador".
outra coisa boa era o acto ser punido por lei (se não o é) e uma pessoa de bem poder dizer livremente "agarra que é arrumador".
em algés, onde há 4 ou 5 parques de estacionamento juntos, 3 deles gratuitos, 1 deles sem arrumadores (por ser manifestamente mais pequeno que os outros e o mais longe da estação).
habilmente divertia-me eu, quando ia para o IST e tinha tempo para estas brincadeiras, ia para um park com arrumador e fazia-me a um lugar o mais longe possivel do sitio onde ele estivesse. mal ele me via a abrandar, largava a correr na minha direcção para me ajudar a estacionar num lugar de 3 por 5 metros sem carros ao lado.
eis senao quando eu abalava para o outro park (sem o deixar chegar muito perto senao ele podia pensar que eu estava a fazer de proposito) e la estacionava.
ora isto em lisboa não é facil arranjar outro lugar portanto o melhor mesmo parece-me que é a despenalização da agressão qualificada com intenção de matar dos ditos "arrumador".
Meio euro?... Eu costumo dar 1 inteiro, não vão eles riscar-me o carro :PPP
Saudações parisienses directamente das Amoreiras ***
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